Marinas

BRANA (Joaquim Bravo)
11 SET - 17 DEZ 2020


curadoria de Diogo Pinto texto de Mariana Tilly e Diogo Pinto

com o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian

Agradecimentos:
Milu Canto Brum Cunha
NENHUM PINTOR É ANÓNIMO

Na véspera da celebração do 10 de Junho de 2017, caminhando pelas ruas do Porto, Marcelo Rebelo de Sousa encontrou numa montra a pintura que o representará na galeria de retratos oficiais do Museu da Presidência da República. O autor, António Bessa, considerado até então um “pintor de rua desconhecido”, cobrou ao presidente apenas um abraço pelo retrato.

Pode-se dizer que o anonimato é a principal característica do “pintor de rua”.
Contraditoriamente, a sua atividade profissional nasce, desenvolve-se e termina de forma pública. Os frutos deste tipo de atividade, também chamados de “lembranças”, são atraentemente nostálgicos, acessíveis, e abundam nas zonas de corrente turística. Nestas zonas, seja na rua ou à beira-mar, o atelier e o museu e a galeria cabem todos na mesma montra, ou na mesma banca portável, convenientemente próxima do seu público-alvo e dos ambientes a que aludem.

Maria de Lourdes Canto Brum Cunha (Angra do Heroísmo, 1940) e Joaquim Bravo (Évora, 1935 – Lagos, 1990) conheceram-se em 1959 durante o seu serviço militar obrigatório, na Ilha Terceira. Casados no ano seguinte, permanecem em Lisboa até ’62 onde, devido à sua mobilização para Angola, Bravo se viu forçado a interromper o seu primeiro emprego como “praticante de escritório” na TAP; de facto, apenas em ‘66 se livra de práticas de escritório, ao estabelecer-se em Lagos - o local onde vive o resto da sua vida - e tornando-se Caddie Master do Hotel de Golfe da Penina, o primeiro hotel de cinco estrelas do sul de Portugal. Estreita-se então a relação entre o Turismo, Bravo e o Algarve.

Lagos, na década de ’60, tornou-se o maior centro turístico do País e o local de uma reunião improvável de artistas excêntricos - maioritariamente eborenses - como Lapa, Palolo e Cutileiro. A vontade de descentralizar encontra-se a par da especificidade das suas práticas artísticas - nas palavras de Bravo, “as minhas obras não são amistosas, não piscam o olho, não são bem temperadas”. Ao longo de décadas de trabalho artístico, Bravo nunca procurou facilitar a receção às suas obras - pelo contrário, é compreensível que não tenha procurado o atraente ou o acessível. As mais bem temperadas obras de Bravo não são, sequer, suas. Assinadas por BRANA, este conjunto de desenhos prima precisamente pela sua descontextualização na vasta obra de Bravo e, em dicotomia, pelo seu fresquíssimo desejo de anonimato.

Após deixar o Penina, e até ao final da sua vida, Bravo foi professor de línguas no
ensino secundário. Curiosamente, também António Bessa se ocupava de dar aulas até àrecessão económica de 2010. Talvez o mestre assim-assim, como é carinhosamente chamado, tenha encontrado maior satisfação e rentabilidade na representação de uma iconografia popular. BRANA nunca chegou a fazer um teste de mercado às suas coloridas marinas.

- Diogo Pinto e Mariana Tilly

ENG

NO PAINTER IS ANONYMOUS

It’s 2017. On the eve of the National Day of Portugal’s celebrations, when walking through the streets of Oporto, Marcelo Rebelo de Sousa found - hanging on a store window - the painting which will soon represent him at the Presidency’s Portrait Gallery. The artist, António Bessa, considered so far an “unknown street painter”, only charged a hug to the President in exchange for the portrait.

One could say that anonymity mainly characterizes “street painters”.
Contradictorily, their professional activity is born, developed and ended in a public way. Because they are attractively nostalgic and accessible, their works are frequently bought as souvenirs, as they are all over the turistic hotspots. In these places - be it on a street or by the ocean - the studio, the museum and the gallery all fit into a window shop or a portable stand, conveniently close to its target audience and the environments the works refer to.

Maria de Lourdes Canto Brum Cunha (Angra do Heroísmo, 1940) and Joaquim Bravo  (Évora, 1935 - Lagos, 1990) met in 1959 during his military service at Terceira Island. After getting married the next year, they stayed in Lisbon until Bravo got called back to Angola in ’62, forcing him to interrupt his first job as “office practitioner” at TAP; in fact, it’s only in ’66 that he gets rid of office pratices, by establishing himself in Lagos - his home for the rest of his life - and becoming Caddie Master at Hotel do Golfe da Penina, the first five star hotel in south Portugal. The connection between Tourism, Bravo and Algarve is therefore established.

In the 60’s, Lagos became the biggest turistic seaside center in the country. At the same time, it was the stage of an unlikely meeting of eccentric artists - many of them from Évora - such as Lapa, Palolo and Cutileiro. The will to decentralize walks hand-in-hand with their particular artistic practices - quoting Bravo, “my works are not friendly, they don’t wink at you, they’re not well seasoned”. Over his prolific and energetic career, Bravo never sought-out to ease the reception of his works - on the contrary, it’s
understandable that he didn’t care for what’s attractive or accessible. His most well-seasoned works aren’t even his. Signed by BRANA, this group of drawings excells in two ways: first, precisely by being out-of-context from his artistic inclinations; and antagonistically, by their fresh desire of anonymity.

After leaving Penina, and until the end of his life, Bravo was a language highschool teacher. Oddly, also António Bessa used to teach art classes until the recession hit back in 2010. Perhaps Bessa (fondly called “so-so master”) found greater rentability and satisfaction with his trademark representations of
popular icons. BRANA never market-tested his colorful marinas.

- Diogo Pinto and Mariana Tilly










Ascensor - Associação Goela

R. dos Baldaques 47, 1900-211 Lisboa

+351 21 595 0093
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Quartas, quintas e sextas-feiras das 17h às 20h

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https://www.instagram.com/associacaogoela/


Ascensor

O Ascensor é um projecto expositivo da Associação Goela, organizado por Diogo Pinto e Daniel Antunes Pinheiro. Surge da vontade de preencher não só uma sala vazia na cave da sede mas também de um vazio cultural presente na atual paisagem institucional lisboeta. Situando-se precisamente no final do poço do elevador do edíficio que a sobrepõe, é uma programação colaborativa focada num repensar das altitudes hierárquicas da atenção e celebração pública, procurando no contraste cronológico uma certa atemporalidade que demonstre a maleabilidade da, por vezes, desatenção histórica. 
Associação Goela

A Goela é uma associação cultural fundada em Outubro de 2013 em Santa Apolónia. Tem como principal motivação apoiar os diversos artistas que nela residem, fomentando multiplicidades do trabalho artístico e coletivo.
Tem desenvolvido algumas parcerias com outras instituições com foco nas áreas do desenho, da escultura, da fotografia e da arte sonora.